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Desembarque para a Liberdade

      Hoje é Shabat. Estamos no navio há uns trinta dias, eu minha mulher Sara nosso filho Henrique e nossa filha Irene, de três anos. Eliezer, meu filho de dezesseis anos, infelizmente foi pego. Os outros ficaram por lá, provavelmente estão mortos ou tentando fugir, não conseguiram sair. Conseguimos salvar Irene e Eliezer. Amanhã ela completa dois anos. Neste navio tem umas trinta famílias, mais ou menos, não sei ao certo. Só sei que saímos todos da mesma região. Se ficássemos também morreríamos sob ordem do Czar.
Não sabemos nada do que vamos encontrar, apenas que o nome do lugar é Brasil, e que são imensas as terras deste país. Nós chegaremos bem ao extremo sul. O Sr.Cohen, da Jewish, me disse que nós sairíamos da Bessarábia para a liberdade, e que a gente deste lugar é rude, mas justa e hospitaleira. Sei também que teremos que esquecer tudo sobre ferramentas para conserto de cravos e pianos e aprender a plantar e colher para comer e viver.

Amanhã parece que o navio finalmente vai atracar no porto e nós vamos desembarcar. Bom, pois eu e os meus já não aguentamos mais, a viagem está muito dura, estamos virados em trapos. As outras famílias também estão sofrendo demais e há muitas crianças no navio. Mas estamos todos carregados de esperança.

Quando finalmente pisarmos em terra firme, teremos todos do navio que falar com o Sr.Steinbruch, que estará nos esperando no porto de uma cidade chamada Rio Grande...Tomara que possamos falar com ele e conseguir logo um lugar para ficar. Talvez tenhamos um pedaço de terra, o qual pagaremos com trabalho, não sei. Só sei que há muito tempo não tinhamos um pouco de paz. Há alguns dias vi dez, doze pessoas serem fuziladas, ali, na minha frente, todos judeus, algumas crianças...isso é muito triste... Nós estamos psicologicamente arrasados, a maioria neste navio perdeu tudo, ou seja, o pouco que tinha. Mas começaremos tudo de novo com ajuda de D’us..

VINTE E UM DIAS DEPOIS....

Hoje é Shabat. Este lugar onde fomos instalados tem muito, mas muito verde. Muito mais do que em Pinsk. E, pelo que pude perceber, não dista muito do mar! Nós já temos onde ficar, é um pouco longe dos outros, em uma casa simples, mas segura, e o melhor: livres e sem perseguição! Aqui ningúem mata ninguém, a não ser quando homens brigam muito feio. Não vemos muita gente, a nossa casa fica longe dos nossos vizinhos. Mas minha mulher Anne, que é do tipo que fala bastante, até já conseguiu conversar com uma senhora daqui. Claro que não entendeu nada, só que ela adora fazer para sua família uma mistura de arroz com carne picada. E que fica melhor com uma carne que já tenha sido bem assada na brasa, e eles gostam de assar carne! Eu já tinha escutado no navio que aqui se come muita carne. A gente come galinha, é fácil criar, e tem um Rabino, que está aqui desde o ano passado, que mata para a gente. Ele mora longe, depois de um morro. Aqui tem muitos morros à volta e faz muito calor, agora que é verão.
Estamos vivos, bem e em paz, e isso é o que importa. Tanto eu quanto Anne sabemos que vamos sofrer muito pois teremos que virar agricultores, mas confiamos em D’us, que vai nos ensinar aos poucos como plantar e colher, e nas pessoas ue estão nos ajudando. Henrique vai trabalhar comigo e Irene está tranquila, já dorme bem e sempre sorrindo e cantando, eu nem posso acreditar... Acho que vai ser cantora! Ouvi dizer que daqui a alguns dias chegarão outras famílias aqui no Rio Grande do Sul. Mais gente que estará a salvo!

por Frank Warshawski