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Veja aqui algus destaques das edições anteriores


Entrevista com Moacyr Scliar - Ed. 1

Jantando com o Imortal - Ed. 1

Os filhos da Imigração - Ed. 1

Resgate de ânimo - Ed. 2

Muro da esperança ou da vergonha? - Ed. 2














Moacir Scliar Entrevista com Moacyr Scliar

"Eu tenho um carinho especial pelo clube"

Todos queriam cumprimentá-lo e, claro, trocar algumas palavras. Estavam emocionados, percebia-se. Moacyr Scliar também. Mesmo assim, atendeu a todos, sempre com a educação e o carinho costumeiros. Em meio ao assédio, Moacyr, muito cordial, bateu um papo com a reportagem do jornal:

Campestre- O que significa para você ser homenageado por um clube judaico?

Moacyr Scliar - Há dois aspectos nessa homenagem que são importantes. O primeiro é em relação à comunidade como um todo. Essa eleição para Academia Brasileira de Letras, que é uma instituição tradicional e que simboliza o supra-sumo da intelectualidade brasileira, é muito importante para uma comunidade de imigrantes, uma gente que começou lá debaixo e que no próximo ano estará completando um século de permanência no país. Então, de alguma maneira, isso (a eleição) é um reconhecimento ao valor cultural dessa comunidade. E receber uma homenagem do Campestre, que é um clube cuja trajetória eu acompanho desde a sua fundação e onde passei muitos anos trazendo meu filho, significa receber uma homenagem dos amigos, de quem eu gosto muito. Portanto, eu tenho um carinho especial pelo clube.

O Campestre - Você está sendo homenageado num Jantar dos Cozinheiros, uma tradição no clube. O que você acha disso?

Moacyr Scliar - Esse é o sonho de qualquer mãe judia: receber homenagem durante um jantar com tanta comida. Se minha mãe estivesse viva, ela diria "esse foi o melhor prêmio que tu recebeste, podes esquecer o fardão porque o jantar é a melhor coisa".

O Campestre - Por conta da sua eleição, a etnia judaica ganhou muita exposição no Brasil. Que significado isso tem para você?

Moacyr Scliar - Realmente, isso tem sido muito importante para lembrar que cultura é um valor judaico. O pronunciamento desse premier malaio, lembrando que os judeus inventaram coisas como a democracia e o socialismo, mostra que, não porque sejamos diferentes, mas por causa da nossa posição na história da humanidade, nós freqüentemente desempenhamos um papel de vanguarda. Pagamos um preço por isso. Mas assim como pagamos um preço, também temos de ter o reconhecimento. E essa eleição é um reconhecimento à contribuição judaica para o Brasil. O Campestre - Você acha que os judeus ainda fazem jus ao epíteto "Povo do Livro"? Moacyr Scliar - Acho que sim. Não mais no sentido que tinha, quer dizer, um grupo que era o guardião da Bíblia, mas como um grupo humano que valoriza a educação, a cultura, as letras de um modo geral.

O Campestre - Você acha que é no ambiente familiar que se fomenta esse apreço à leitura?

Moacyr Scliar - Não tenha dúvida. Por mais humildes que fossem as casas do Bom Fim, e essa imagem faz parte da minha infância, nelas sempre havia pelo menos uma pequena prateleira com livros. Era algo que impressionava. Livro era parte do equipamento judaico de sobrevivência no Brasil. E acho que essa tradição se mantém, porque freqüentemente as expressões judaicas, aquelas pessoas que se destacam, sejam profissionais liberais ou intelectuais, são uma gente que criou o seu espaço graças à cultura. A tradição, portanto, se mantém.

O Campestre - Num programa local de televisão, você disse que, mesmo com todo o êxito alcançado como escritor, se tivesse de escolher entre a literatura e a medicina, ficaria com a medicina. A resposta causou certa surpresa. Você pode recuperá-la agora para O Campestre?

Moacyr Scliar - É que a medicina também é, em grande parte, uma profissão judaica. E isso também é algo que veio ao longo do tempo, desde a Bíblia, que é um livro que dedica um espaço inusitado para a saúde, para a doença. De modo que doença faz parte da cultura judaica, e medicina também. Então, sendo médico e escritor, estou seguindo uma tradição. O que eu disse, e repito, é que nesse país medicina é mais necessário que literatura. Portanto, se Jeová me mandasse escolher, eu escolheria medicina.

O Campestre - No Brasil, lançam-se cada vez mais títulos no mercado, mas isso não se traduz exatamente em mais leitores. Que fenômeno é esse?

Moacyr Scliar - Eu não sou pessimista em relação à situação brasileira. As pessoas costumam dizer que os jovens não gostam de ler. Isso até pode ser verdade, mas há três coisas que devem ser ponderadas. Primeiro, quando eu era criança, metade deste país era analfabeta. Hoje a massa de alfabetizados aumentou muitíssimo. Segundo, a leitura hoje de autores contemporâneos é parte do currículo escolar. Terceiro, adequadamente motivados, os jovens lêem. Então, essa história de que se lê pouco não corresponde à verdade.





Jantando com o Imortal


O 29º Jantar dos Cozinheiros, evento tradicional do Club Campestre, realizado na noite de 18 de outubro, homenageou o escritor Moacyr Scliar, eleito este ano para a Academia Brasileira de Letras.

A noite quente do sábado estimulava o encontro, o brinde, a comemoração. Parecia obra dos Deuses da Literatura, dispostos a colaborar com o clima que ambientou o Jantar dos Cozinheiros que rendeu honras ao escritor Moacyr Scliar, que conquistou em 2003 a imortalidade da Academia Brasileira de Letras (ABL). A edição deste ano, intitulada Jantando com o Imortal, foi um agradecimento do Club Campestre, como instituição judaica gaúcha, a alguém que tanto tem feito pela etnia, colocando-a sempre num patamar elevado, deixando-a envaidecida. Ao reverenciar a magnitude da obra de Moacyr, a ABL reconheceu igualmente a contribuição cultural que os judeus vêm dando ao Brasil nestes quase cem anos de imigração.
Foi uma festa à altura do homenageado. E foi uma festa de vulto porque a direção e os funcionários do clube primaram pela originalidade e pelo esmero na organização. Para distinguir um escritor do porte de Moacyr, reuniu-se um grupo de letrados notáveis do Estado. Distribuídos em duas mesas, felizes pelo feito do amigo, conversavam animadamente Armindo Trevisan, Letícia Wierzchowski, Ruy Carlos Ostermann, Cláudia Tajes, Carlos Urbim e Cíntia Moscovich. Mas talvez a idéia mais marcante tenha sido a de compor um jantar temático. Cada uma das quatro cozinhas (veja box ao lado) foi identificada por um dos gêneros literários aos quais Moacyr sempre se dedicou, e os cozinheiros elaboraram pratos cujos nomes se misturavam aos das obras do escritor imortalizado. Como aperitivo, vinho e cerveja ajudavam a descontrair. O destaque, contudo, foram as delícias preparadas pela dupla de coqueteleiros da barraca Showbar Eventos.
Depois do jantar, o personagem principal do encontro usou o microfone, no centro do salão. Moacyr estava à vontade, sentindo-se em casa. E era mesmo a sua casa. Ele próprio fez questão de recordar os belos momentos que viveu no Campestre, desde a sua fundação, passando pelo período em que começou a acompanhar o filho Beto, quando este era pequeno. Agradeceu à comunidade e à direção do clube pela distinção e brincou dizendo que sua mãe, dona Sara, já falecida, como toda mãe judia, ficaria realizada com o fato de ele ser homenageado exatamente num jantar com fartura de comida. A brincadeira provocou gargalhadas.
Mais tarde, o cantor e compositor Nico Nicolaiewsky, tocando teclado, fez um show que durou aproximadamente uma hora. Nico é informal, e essa característica se traduziu no formato de sua apresentação. Os mais de 250 convidados gostaram. A festa, que se iniciou às 21 horas, passou das quatro da manhã, mesmo contando com a perda de uma hora, por conta do ajuste dos relógios ao horário de verão. Ressalte-se o serviço de apoio oferecido pelo ecônomo do clube, Joaquim Aita, que teve a eficiência e a qualidade costumeiras.
Na chegada, a figura de Moacyr, emoldurada em um banner colocado no hall de entrada do salão, dava uma espécie de boas-vindas aos convidados. Agora, na saída, tratava de saudá-los com um até-breve. Afinal, como imortal, Moacyr estará para sempre presente em todas as edições do Jantar dos Cozinheiros.










Os filhos da Imigração


Abrão Slavutzky*

Somos filhos ou netos de imigrantes, a imigração tem a ver com cada um, saibamos ou não. As gerações nascidas aqui são marcadas pelas vivências psíquicas de pais e avós que saíram de pequenas shteitls para radicar-se em terras gaúchas. Tiveram que aprender uma nova língua, bem diferente do iddishe ou de qualquer outra da Polônia ou da Rússia, e uma outra cultura. Mas, por incrível que possa parecer, nós ainda sabemos pouco da aventura de nossos familiares. Agora, frente ao centenário da imigração judaica que vai ocorrer em 2004, as velhas histórias poderiam ser retomadas. Os imigrantes foram obrigados a recalcar seu passado, suas vivências, e tudo isso retorna, de uma ou outra forma. As marcas psicológicas nos velhos imigrantes, que tanto lutaram para sobreviver em situações dificílimas, seguem presentes. Para quem quiser recuperar estas vivências, sugiro um pequeno grande livro, Numa Clara manhã de Abril , de Marcos Iolovitch. Reeditado há poucos anos, registra de forma notável o que foram os primeiros anos de vida aqui na cidade, como vendedor de peixe, de carne, de pequeno comerciante pobre. Moacyr Scliar, nosso imortal, no prefácio, registrou a sua dívida de gratidão. Foi para ele uma obra inspiradora, a qual releu muitas vezes, sempre emocionado. Em sua primeira novela, A Guerra do Bom Fim, fez uma homenagem a este livro.
Nas novelas do Scliar aparece a visão do filho do imigrante, uma identidade judaica com toda a sua riqueza e contradição. O Centauro no Jardim, por exemplo, revela no seu personagem principal, Guedali Tartakovsky, metade animal, metade homem, o gaúcho e seu cavalo, mas também a divisão no judeu entre a sua velha condição e a nova realidade de brasileiro. Hoje já temos também outros escritores, fazendo ficção e ensaios de memórias, destacando também os depoimentos dos imigrantes que constam do Museu do Instituto Marc Chagall. Trazer o que ocorreu no início do século XX para o presente nos enriquece, porque a odisséia dos antepassados merece ser conhecida por todas as gerações, faz parte de nossa história.
* Psicanalista, organizador de A Paixão de Ser - Depoimentos e Ensaios sobre a Identidade Judaica e de O Dever da Memória - 60 anos do Levante do Gueto de Varsóvia.



    Isaac Soibelman é um dos fundadores do Campestre, clube onde seu filho e seu neto também são sócios. O filho adquiriu o chamado título-mirim, lançado para pequenos sócios, e o neto assumiu a titularidade do avô. Soibelman já foi presidente do clube e vê com bons olhos a atuação da nova diretoria: “Estão se saindo muito bem, encontram-se em plena ascensão”. Salienta também que as piscinas estão bem tratadas e que as reformas da direção atual foram muito boas. "Os últimos tempos não foram os melhores no Club Campestre, muitos sócios andavam afastados e a freqüência dos remanescentes era bem reduzida". Isaac Soibelmann acredita que um dos fatores determinantes desse esvaziamento do clube seja a existência de muitos condomínios com piscinas. Além disso, os jovens de hoje não têm o mesmo hábito de ir ao clube como os de sua geração.
    Soibelman relembra dos bons tempos em que estava na administração das atividades do clube, quando realizou o Festival de comida iídiche (idéia trazida do Rio de Janeiro) e criou o Jantar dos Cozinheiros em sociedade com Selmon Matec, um benfeitor já falecido do Campestre. O Jantar dos Cozinheiros, aliás, uma das marcas do clube, é realizado até hoje, transpassando a mudança dos tempos.
Apesar dos tempos serem outros, Soibelman está contente com o momento atual, percebendo uma certa reanimada no clube. “A nova diretoria resgatou o ânimo de outras épocas aqui no Campestre”.







Muro da esperança ou da vergonha?

      Vamos começar corrigindo um erro de nomenclatura: o tal muro de separação entre israelenses e palestinos chama-se aqui em Israel de cerca, apesar de ser nada mais do que um muro. Este nome não foi dado por acaso. Muro é uma coisa pesada, permanente, cerca é uma coisa temporária. O governo de Israel usa esta nomenclatura talvez para dar uma certa ilusão ao povo israelense de que se não se trata de uma fronteira de facto, quando a verdade é que está se traçando, de forma unilateral, uma fronteira permanente.


      As opiniões em Israel se dividem, não sobre a necessidade desta separação, deste muro, mas sobre a delineação do mesmo. Existe quase uma unanimidade sobre a necessidade de separação completa entre palestinos e israelenses para que possa haver algo parecido com paz. Os únicos que se opõe à separação são aqueles poucos radicais que ainda acreditam no sonho louco da Grande Israel (mesmo os mais direitistas já abandonaram esta ilusão).


      Tanto a direita quanto a esquerda concordam que uma fronteira é a melhor maneira de evitar a entrada de terroristas, e que é mais fácil defender-se ao longo de uma fronteira do que manter forças armadas massivas dentro das cidades e aldeias palestinas. A discórdia começa no que toca à forma de fazer isto. O atual governo de Israel decidiu delinear uma fronteira unilateral, sem base em nenhum acordo comum entre israelenses e palestinos.


      O muro está sendo construido de forma desordenada, cortando propriedades e cidades palestinas, e desta forma, em vez de auxiliar na solução do conflito, ele o aprofunda ainda mais. As inevitáveis comparações com os guetos começaram a proliferar, ou seja, além de não ajudar, Israel ainda deu aos palestinos mais uma razão legítima para manter-se no papel de vítimas. Em termos de segurança o muro não ajuda muito, pois não é contínuo (e nem vai ser, pelo menos durante a cadência do atual governo, que teima em manter o delineamento final como um assunto nebuloso) e não está sendo guardado como uma fronteira deveria ser, pois o exército ainda está presente dos dois lados.


      O que ganhamos com isto? Nada a não ser mais conflito, nada a não ser mais sangue dos dois lados. Uma fronteira é necessária, é vital como o ar que respiramos, mas ela não será realidade enquanto os líderes dos dois povos continuarem se comportando como se fossem cegos, surdos e mudos. Para que o muro passe a ser uma cerca que divide entre as propriedades de dois vizinhos, ele só poderá ser construído de forma mútua, de comum acordo.